Passos

Ele caminhava, na rua escura e sozinha ele caminhava. Seus gestos e passos mecânicos, contados um por um como uma tarefa a ser repetida e assim caminhava. Seus olhos tinham um brilho opaco, vazio e inerte. Era taciturno, olhava como se as coisas não estivessem mesmo lá, e se estivessem, não se importava. As vozes na rua eram barulhentas e enjoativas, e nem mesmo os doces sons das músicas dos bares e lojas próximos o agradavam. Na verdade, era tudo um saco. Só faltava de fato a lata para depositar todo aquele lixo, ele pensou.

A noite era fria e o brilho da lua prateado refletiu num espelho próximo. Seus olhos reluziram, quase como demonstrando que ainda havia nele uma centelha de brilho. Era tão opaco que era difícil de se ver. Seria inútil tentar descrever a sensação que olhá-lo nos olhos causava, e só aqueles que já sentiram a solidão são capazes de compreender. Não que fosse apenas a tristeza de sentir-se só, os olhos já estavam vazios de cansaço, por sentirem durante tantos anos aquela sensação.

Se você o olhasse de longe ele pareceria velho. Não como um idoso de muita idade, mas como se estivesse enferrujando, perdendo a vitalidade que a pouca idade lhe dava. Ao olhá-lo de perto podia-se ver os traços juvenis e quase infantes, porém, a severidade em seu semblante fazia com que seu ar fosse sério demais, e em certos casos, intimidador, pois era um homem de poucas palavras e poucos sorrisos. Ele caminhava na rua, havia acabado de se despedir e estava pensando em como pudera deixar de dizer coisas que pensou. Não havia arrependimento em sua voz quando colocou as mãos nos bolsos e sentiu o conforto gelado do metal das chaves e disse: “Bom, é como sempre acontece.”

E de fato, ele não se lembrava de uma ocasião em que tal fato não tivesse ocorrido. Era como um filme em pequenos flashes, lembrando-o de todos os rostos afáveis, olhos redondos e coloridos, lábios vermelhos, cabelos perfumados, vozes aveludadas, dizendo-o as mesmas coisas, para depois irem como a noite. Lenta e fria.

Cada passo seu era tão meticulosamente previsível, que tornara-se tedioso observá-lo andar. Pé direito, pé esquerdo, pé direito, pé esquerdo, pé direito, degrau, pé esquerdo, degrau, pé direito. Olhar que atravessa o mundo, que nenhum objeto retém. Nada era tão interessante quanto seus pensamentos, os quais, faziam-no refletir a pálida luz da lua, e via-se que ele era só. Tão só quanto as estrelas estão distantes da Terra. Tão só quanto a luz do Sol, que brilha sozinha no alto do horizonte. Não que sua solidão fosse bela como o Sol, mas era única, como o astro. Havia em sua alma, no entanto, palavras que cantavam, e ele raramente as deixava cantar, pois sabia que era só, e que portanto, cantar só é triste. Quando as mostrava, poucas vezes vira alguém ficar para cantar junto. E quando isso acontecia, ele lembrava, poucas horas eram tudo o que durava. Ele caminhava na rua reta e escura, bonita como só as ruas sabem ser. O vento gelado tocava-lhe as faces, avermelhadas pelo clima da noite e pelo tempo de seu próprio ser. Não caminhava no escuro, porém, já que a bondade do astro prateado estava iluminando seus passos, um depois do outro, com a mesma marcação rítmica de um músico dedicado. Havia, no entanto, sombras em suas lembranças, e elas pareciam pesar-lhe a caminhada, mas, mesmo assim, os passos eram ágeis e raramente falhavam. Era o caminhar de ser só.

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© 2020 por Emmanuel Prado. 12744671606

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