Lentes


A fumaça acinzentada e amargamente doce erguia-se esguia por uma luz cálida, amarela, que chamuscava e piscava, incoerente, partindo da abóboda cristalina do vidro e do fio metálico aquecido. A xícara gasta, alva como os dentes de um velho, redonda e perfeita, soprava indefinidamente, indecisa, aquele aroma distinto. Aroma doce de café. Aroma amargo de manhã. O burburinho das vozes era ainda tão pequeno quanto o calor daquela xícara. Um ponto vivo, cheio de ardor queimando suavemente os dedos que o seguravam. Acalentando os lábios cansados que sorviam num vaivém infinito de quem bebe delicado. Os olhos juntavam-se a contemplar a dança do vento esfumaçado que se erguia, os olhos quase tornavam-se vesgos, hipnotizados pelo ritmo inconstante a que seguiam. Era um beijo entre a voz do vento quente e os olhos sonolentos e entretidos. As pessoas caminhavam travadas ao entrarem pelas portas largas de vitral. Seus hálitos gelados, cujo ar se condensava diante de seus olhos, enquanto abraçavam-se a si mesmas na tentativa de aquecer o próprio coração. A xícara parecia alheia a tudo aquilo, enquanto as mãos finas que a seguravam eram delicadamente precisas em erguê-la e descê-la a cada gole, como se fosse aquilo a degustação do infinito que reside na fumaça esguia, agora quase inexistente. As mãos juntas formavam uma concha genuína a erguer a pérola de cerâmica, desgastada e cheia de um precioso luzir amarronzado em seu interior. Os olhos brilhosos que dançavam com a fumaça agora estavam fixos no centro do objeto, como se conversassem com o líquido amargo que ali habitara por toda eternidade. Era uma conversa longa a refletir sobre as cores das estrelas no céu, e porque elas ainda aparecem quando o sol nasce nos dias mais frios. Por fim, aquilo esgotara-se com a magia amarga que descia os lábios buscando as portas da voz, aquecendo a fala que ainda muito seria usada naquela manhã. Restara a xícara, com seu fio intragável de café a reverberar pelas bordas do fundo da louça, tão delicada e gasta, agora sem vida e sem fumaça. Sua existência havia cumprido seu propósito. Aquecer. Os olhos ergueram-se sorrateiros daquela pequena peça, e passaram a contemplar as cores azuladas da luz que penetrava as janelas. O céu cintilava como se milhares de olhares fossem vistos por aqueles olhos, enxergando profundamente a escuridão aguda que ainda seria extinta pelo sol em poucos momentos. Mas o brilho das estrelas permaneceria até o último momento, antes de ser ofuscado pela grande orbe amarela que dança no céu. O vento lá fora parecia calmo e inexistente. As árvores eram vívidas, mas pesadas, como se algo ainda as cobrisse, ainda que como um véu etéreo, mas visível, cujas pontas não seriam puxadas com facilidade por um mero mortal que resolvesse encontrar a linha solta para descosturar a lisura daquele peso, incomensurável, mas tão leve quanto o ar que enche os pulmões. O chão era lustroso, brilhante de um negro cheio de brilhos prateados. Os pés caminhariam por aquele chão. A mão tão cálida, que havia aquecido suas palmas na formosura da xícara, sentira a frieza do metal avermelhado da porta opaca e vítrea, e o ranger soou, como fazem os pássaros ao começarem o seu dia, com um canto ainda por afinar, mas belo como só a natureza pode compor. O vento tocara a pele desnudada desta mão, como uma carícia de amante ao acordar no dia seguinte, após a delicadeza de um amor tão sutil. O rosto sentiria a emoção e o frio. A geada delicada agora era deslizada do véu das flores, como um cetim de seda que despe o corpo num giro acalentado. Como a sensação das mãos frias a tocar as bochechas tão quentinhas. As estrelas despontavam o seu choro agora por não poderem mais brilhar no céu desta manhã, e era possível verificar em seus melancólicos cintilantes passos a saudade que teriam de iluminar. Mas o Sol era agora quem despontava, como quem desperta de um sono milenar. Um raio de cada vez, atravessava assim o céu, como um amor atravessa ao coração solitário. O ar esvaziou os pulmões num exalar lento e enigmático, como quando se termina uma canção. O ar voltara e junto com ele a sensação gelada da saudade. Agora não havia mais estrelas para contemplar. Havia agora o despontar da luz solar. E os olhos outrora sonolentos, agora tão vívidos, buscaram nos prédios de tijolo à mostra uma janela ou uma brisa delicada nas cortinas. As mãos delicadas buscavam o couro enrijecido, a procurar pelo botão que abriria aquela costura. A precisão cirúrgica do hábito. A agilidade das pontas dos dedos em tocar o plástico e empurrá-lo pela abertura geraram a leveza do vento gélido a subir pelas mangas do sobretudo. Já aberta a bolsa, as mãos buscavam cegamente o pequeno envólucro que guardava a visão do mundo. Os olhos já fixos em um pequeno canteiro ao longe, acima de uma sacada. As flores de um tom único refletiram-se nas pupilas dilatadas. As mãos esbarram no acidente tão provável de seu alvo. O som do zíper é inconfundível. A mão já buscava a forma tão aguardada. O movimento dos dedos a abrir espaço e o puxão lento e metódico revelariam a presença maquinária. Os olhos de seus próprios olhos. O silêncio da manhã tão fria era o abraço de conforto que circulava ali em volta. Com a graça angelical os olhos já miravam o botão colorido, e num milésimo de segundo as lentes o focavam, buscando a cor única que agora já era uma mera pintura, depois de registrada. Seus olhos viam mais do que sua máquina podia perceber. Seus olhos devoravam o mundo com o sorver do café. Íntimo. Sensual. Ávido. Delicado. Infinito. Cada momento era registrado pelas lentes que focavam e desfocavam. A precisão milimetricamente calculada a centenas de metros era reproduzida pelo artifício tão vazio de vida, mas que agora servia-lhe como prisão-reflexo. Refletia agora o que aqueles olhos fundos enxergavam. A mira era minuciosa. Nem mesmo as asas das borboletas a escapavam. O passo das formigas e a dança das flores. Os sorrisos infantes lhe eram fáceis de capturar. O som forte do clicar da máquina era o que se ouvia. As nuvens agora começaram a distinguir-se do azul do céu, e eram essas também a matéria de sua aguçada visão. Nem mesmo o orvalho oculto lhe escapara. Uma coleção de pinturas do passado, como uma marca de sua eternidade agora registradas para sempre num filme a ser revelado. Uma coisa porém em tempo algum lhe era capturada. Sua própria imagem não era vista em superfície polida, espelho, miragem ou lembrança. Nem mesmo a mais cristalina água a refletia, e assim, jamais aquelas lentes viam a fonte de seu labor tão primoroso. Aqueles olhos não poderiam ser capturados por si mesmos. Seu caminho por entre as vitrines e vidros era vazio, pois não havia reflexo. As lentes que ao mundo todo registravam, precisavam e enclausuravam na pintura que a luz imprimia sobre o negativo eram perfeitas em sua imperfeição. Nos pequenos deslizes que às vezes a lente sofria com o premir do botão. Das cores que às vezes não eram exatas. E seu caminho era ver para sempre o eterno diante de si. Mas aqueles olhos sabiam, em seu íntimo profundo e brilhante, que seu reflexo seria na luz das estrelas. A luz que agora já não brilha no céu claro e fumegante, amarelado e azulado. O céu da manhã, que antes tão eterna e cinza, agora era para sempre a sombra de sua própria sombra.

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© 2020 por Emmanuel Prado. 12744671606

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